O Brasil fechou 2025 com o maior número de empresas em recuperação judicial de toda a sua série histórica. Esse tipo de virada é o que profissionais como Pedro Henrique Torres Bianchi, advogado e administrador de empresas especializado em reestruturação empresarial, vêm acompanhando com atenção redobrada desde o início do ano. Segundo o Indicador de Falências e Recuperações Judiciais da Serasa Experian, 2.466 CNPJs estiveram envolvidos em processos de reestruturação no ano passado, um avanço de 13% em relação a 2024 e o maior patamar já registrado. Em termos de processos, foram 977 pedidos, alta de 5,5% e o maior volume desde 2016, ano que até então era lembrado como o pico de uma das piores crises econômicas recentes do país.
A comparação entre os dois períodos é reveladora. Em 2016, em plena recessão, com juros e inflação elevados afetando praticamente todos os setores, o Brasil registrou 1.738 empresas em recuperação judicial. Em 2025, sem uma recessão formalmente declarada, esse número chegou a 2.466. A tradução prática incomoda: mais empresas estão em dificuldade agora do que durante a pior crise da última década, e o motivo não é um colapso generalizado da economia, mas algo mais específico e, em certo sentido, mais perigoso por ser silencioso: o custo do dinheiro.
Esse tipo de leitura ajuda a entender por que o tema deixou de interessar apenas a advogados e passou a fazer parte da pauta de economistas, bancos e gestores de risco de crédito em todo o país.
Juros altos, dívida velha: a origem real do recorde
Segundo a economista-chefe da Serasa Experian, muitas empresas entraram em 2025 ainda fragilizadas após um ciclo de juros bastante restritivo desde 2022, o que resultou em um estoque de dívidas elevado e caro. Em outras palavras: o problema de 2025 começou a ser construído anos antes, em decisões de endividamento tomadas num cenário diferente, e foi se acumulando até estourar quando o crédito ficou mais seletivo e mais caro de rolar.
Esse acúmulo explica também por que a inadimplência segue como termômetro de alerta. Em janeiro de 2026, havia 8,7 milhões de CNPJs negativados no país, com dívida média superior a R$ 23 mil e cerca de sete restrições por empresa inadimplente. Como a própria Serasa Experian destaca, o aumento da inadimplência historicamente antecede os movimentos de recuperação judicial, o que mantém o mercado em estado de atenção para os próximos meses. Pedro Bianchi, como profissional com experiência na administração de empresas em situação de crise e no contencioso empresarial, ressalta a importância de estar atento justamente a esse tipo de sinal antecedente, monitorando de perto antes que a situação evolua para um quadro de inadimplência consolidada.
Agro e serviços lideram, mas o recorde é transversal
Olhando por setor, o agronegócio liderou os pedidos em 2025, respondendo por 30,1% do total, seguido de perto por serviços, com 30%, comércio, com 21,7%, e indústria, com 18,2%. A presença forte do agro chama atenção porque o setor enfrenta uma combinação particular de riscos: oscilações climáticas, exposição cambial em insumos dolarizados e um ciclo financeiro mais longo entre safra e entressafra, o que amplia a volatilidade de caixa e torna a recuperação judicial, nesse contexto, um instrumento de preservação de operação e de emprego, e não apenas um recurso de última instância.

Curiosamente, enquanto as recuperações judiciais avançam, os pedidos de falência seguem em trajetória de queda, recuando cerca de 19% no acumulado de 2025. Esse contraste sugere que, mesmo em um ambiente de crédito apertado, mais empresas estão conseguindo buscar reestruturação a tempo de evitar o desfecho mais drástico, sinal de que o instrumento legal está sendo utilizado, ao menos em parte, da forma como foi desenhado para funcionar. Nesse ínterim, Pedro Henrique Torres Bianchi, com experiência em administração de empresas em crise, aponta esse contraste como evidência de que a cultura de buscar reestruturação antes do colapso total vem se consolidando no país.
Um recorde que desacelera, mas não recua
Um detalhe importante no comportamento recente dos números é que o ritmo de crescimento, embora ainda positivo, vem perdendo força. Depois de um salto de 36,2% em 2023, a alta foi de 26,4% em 2024 e de 12,9% em 2025. Isso sugere um processo de normalização em um nível historicamente elevado: o instrumento continua sendo usado com frequência, mas sem a mesma aceleração vertiginosa dos anos anteriores.
A trajetória de 2026 deve depender de fatores concretos: o ritmo de queda da taxa de juros e seu impacto no custo do crédito, as condições de concessão de crédito para pequenas e médias empresas, o nível de inadimplência corporativa e o desempenho da demanda interna. Nenhum desses fatores é, isoladamente, decisivo, mas juntos formam o conjunto de variáveis que vai determinar se 2026 repete o recorde de 2025 ou inicia, finalmente, uma trajetória de alívio.
Para Pedro Bianchi, esse tipo de leitura multifatorial é importante porque evita dois exageros opostos: tanto o alarmismo de tratar cada novo dado como sinal de colapso generalizado, quanto a complacência de ignorar que o patamar atual ainda é o mais alto já registrado.
O que o recorde ensina sobre agir antes da crise?
Por trás de cada CNPJ que aparece nessas estatísticas existe, quase sempre, um histórico de sinais que poderiam ter sido identificados meses, às vezes anos, antes do pedido formal de recuperação judicial. Fluxo de caixa apertado, renegociações sucessivas de curto prazo, dependência crescente de capital de giro caro são todos indícios que, quando lidos a tempo, abrem espaço para soluções menos traumáticas do que um processo judicial completo.
É justamente nesse intervalo entre o primeiro sinal de dificuldade e o pedido formal que profissionais com experiência na administração de empresas em situação de crise, como Pedro Henrique Torres Bianchi, costumam insistir que está o verdadeiro valor da consultoria especializada: não apenas conduzir bem um processo já instaurado, mas ajudar a evitar que ele se torne inevitável. O recorde de 2025 não é apenas uma estatística sobre o passado recente; é também um convite, para empresários e gestores, a tratar o monitoramento financeiro contínuo como parte essencial da gestão, e não como tarefa para quando o problema já estiver instalado.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

