Entre todos os números que costumam ser monitorados por quem cuida da saúde, como peso, percentual de gordura e circunferência abdominal, existe um indicador que a ciência considera mais preditivo de longevidade do que praticamente qualquer outro, mas que raramente aparece nas conversas cotidianas sobre saúde metabólica. Lucas Peralles, especialista em comportamento alimentar, retrata que esse indicador é o VO2 máximo, medida da capacidade do corpo de captar e utilizar oxigênio durante esforço físico intenso.
Uma revisão de revisões publicada em 2024 no British Journal of Sports Medicine, reunindo mais de vinte milhões de observações em cento e noventa e nove estudos de coorte, encontrou que a aptidão cardiorrespiratória apresentou a maior redução de risco para mortalidade geral entre todos os fatores avaliados, comparando pessoas com alta e baixa capacidade física. Diante desse volume de evidência, Lucas Peralles expõe que condicionamento cardiorrespiratório merece um lugar muito mais central nas conversas sobre saúde do que costuma receber atualmente.
Por que esse indicador consegue prever mortalidade melhor que outros fatores conhecidos?
Um estudo com mais de cento e vinte e dois mil participantes encontrou que o grupo com pior condicionamento físico apresentou risco de morte cinco vezes maior comparado ao grupo com melhor condicionamento, e o benefício de melhorar essa capacidade parece não ter teto: quanto mais alto o nível de aptidão, menor o risco, sem sinal de platô mesmo entre os praticantes mais condicionados. Outra análise de grande escala, reunindo dados de mais de setecentos e cinquenta mil veteranos americanos, confirmou que cada incremento equivalente a um MET, sigla para equivalente metabólico, unidade que mede o gasto de energia de uma atividade em relação ao gasto do corpo em repouso, na capacidade aeróbica se associou a uma redução de treze a quinze por cento no risco de morte, independentemente de idade, peso corporal ou outras condições de saúde já existentes.
Tal como frisa Lucas Peralles, esse tipo de consistência entre estudos tão distintos, envolvendo populações e metodologias diferentes, é justamente o que torna esse achado tão robusto cientificamente. A baixa aptidão física pode representar risco à saúde ainda maior do que fatores tradicionalmente mais discutidos, como tabagismo, hipertensão ou obesidade isolada, o que reposiciona completamente as prioridades de qualquer estratégia preventiva.
É possível ser “gordo, porém apto” e ainda assim ter boa saúde metabólica?
Aqui está um dos achados mais provocativos dessa linha de pesquisa. Uma meta-análise reunindo quase quatrocentos mil participantes comparou risco de mortalidade entre diferentes combinações de peso corporal e condicionamento físico, encontrando que pessoas com sobrepeso ou obesidade, mas fisicamente aptas, não apresentaram risco de mortalidade estatisticamente diferente de pessoas com peso considerado normal e também aptas fisicamente. Em contraste, pessoas com peso normal, mas fisicamente inaptas, apresentaram risco quase duas vezes maior de morte por qualquer causa.

Esse achado, segundo Lucas Peralles, não deveria ser interpretado como um convite ao descaso com a composição corporal, mas sim como evidência de que o condicionamento físico carrega peso protetor independente e substancial, mesmo diante de excesso de peso corporal. Em vista disso, perseguir apenas um número na balança, ignorando completamente a capacidade cardiorrespiratória, pode levar a prioridades equivocadas dentro de qualquer estratégia de saúde de longo prazo.
Qualquer forma de exercício melhora igualmente esse indicador?
O treino aeróbico, especialmente em intensidades moderadas a vigorosas, é o estímulo mais direto e estudado para melhorar VO2 máximo, já que desafia diretamente o sistema cardiovascular e respiratório a se adaptar a demandas crescentes de oxigênio. Protocolos que intercalam períodos de alta intensidade com recuperação ativa têm demonstrado eficácia particular para elevar essa capacidade em prazos relativamente curtos, tornando-se uma estratégia bastante estudada em programas de condicionamento físico estruturado.
Esse detalhe é relevante, dado que mostra que melhorar esse indicador não exige necessariamente volumes extremos de treino, mas sim consistência e algum grau de intensidade real, distribuídos ao longo da semana. Lucas Peralles reforça que qualquer estratégia de treino que negligencie completamente o componente aeróbico, concentrando-se apenas em força, deixa de capturar um benefício de saúde que a ciência já demonstra ser particularmente robusto para longevidade.
Como esse conhecimento deveria influenciar prioridades de saúde no dia a dia?
Reconhecer o peso preditivo do condicionamento cardiorrespiratório ajuda a reorganizar prioridades para quem busca saúde de longo prazo, sem abandonar objetivos legítimos de composição corporal, mas incluindo a capacidade aeróbica como métrica igualmente relevante. Isso significa que caminhadas rápidas, corrida, ciclismo ou qualquer atividade que eleve consistentemente a frequência cardíaca ao longo da semana deveriam ocupar lugar central em qualquer rotina voltada à saúde.
Para Lucas Peralles, essa é uma mensagem que a nutrição esportiva contemporânea precisa reforçar com mais convicção: cuidar da alimentação é essencial, mas, sem condicionamento cardiorrespiratório adequado, uma peça fundamental da equação de longevidade permanece incompleta. Investir tempo e esforço em melhorar essa capacidade específica é uma das decisões de saúde com melhor retorno já documentadas pela ciência atual.

